segunda-feira, 18 de julho de 2016

Por que a França tem sido alvo de tantos ataques?

Por que a França tem sido alvo de tantos ataques?

  • 16 julho 2016
Pessoas prestam homenagem a vítimas de ataque com caminhão na Promenade des AnglaisImage copyrightFOTO: EPA
Image captionSó em 2015, atentados extremistas mataram 149 pessoas na França
A França é um dos países ocidentais que mais têm sido alvo de atentados ligados ao radicalismo islâmico nos últimos tempos. Apenas em 2015, o terrorismo matou 149 pessoas e deixou centenas de feridos, segundo dados do parlamento francês.
Incluídas as 84 mortes no ataque em Nice, até o momento, mais de 230 pessoas foram mortas em ataques na França e mais de 700 ficaram feridas desde janeiro do ano passado.
Isso sem contar os vários projetos de atentados interceptados a tempo pelos serviços de inteligência do país: mais de dez desde os ataques de janeiro de 2015, de acordo com as autoridades.
Em março deste ano, por exemplo, a polícia prendeu um suspeito nos arredores de Paris que detinha um importante arsenal de armas de guerra, dezenas de quilos de material explosivo e milhares de bolinhas de aço, que ampliam o impacto destrutor de bombas.
Na noite desta sexta-feira, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, declarou que o autor do atentado na noite de quinta-feira em Nice, o tunisiano Mohamed Lahouaiej Bouhlel, "é, sem dúvida, ligado ao islamismo radical". Na manhã deste sábado o grupo autointitulado Estado Islâmico assumiu a responsabilidade pela atrocidade.
"A França é hoje, claramente, o país mais ameaçado. Um dos números da revista em francês do Estado Islâmico, Dar al Islam, tinha a manchete: 'Que Alá amaldiçoe a França'", afirmou Patrick Calvar, diretor-geral do Departamento Geral de Segurança Interna (DGSI) da França, o serviço de inteligência do país, a uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre os atentados de 2015.
Operação policial francesa em EstrasburgoImage copyrightAP
Image captionPolícia francesa diz ter frustrado uma série de possíveis atentados nos últimos meses
Há várias razões que explicam por que a França se tornou um alvo constante de ataques.
A primeira delas são as recentes operações militares em países como a Síria e o Iraque, contra o Estado Islâmico, e no Mali, que também visam radicais islâmicos.
Outra razão é o fato de a França ter a maior comunidade muçulmana da Europa, estimada em 6 milhões de pessoas, o que corresponde a quase 10% de sua população.
Essa população imigrante ou nascida na França de origem estrangeira sofre há décadas problemas de integração e é, em boa parte, desfavorecida socialmente.
Residem em áreas que concentram uma população imigrante de baixa renda, o que cria verdadeiros guetos e favorece o comunitarismo, acirrando o sentimento de exclusão social.
Nessas periferias consideradas problemáticas, as taxas de desemprego são maiores do que a média nacional.
Enterro de policial morto por militante do Estado Islâmico em junhoImage copyrightEPA
Image captionEnterro de policial morto por militante do Estado Islâmico em junho
Os autores dos últimos atentados e projetos de ataques na França têm um perfil semelhante: fracasso escolar e profissional, com "bicos" ou empregos de baixa qualificação, condenações na Justiça por crimes de violência, tráfico ou roubo. E, em boa parte dos casos, radicalização na prisão.
A França é o país europeu de onde mais saíram jovens para se aliar ao Estado Islâmico na Síria ou no Iraque.
Segundo o governo, cerca de 1,8 mil franceses estariam implicados em movimentos jihadistas nos dois países. Em torno de 600 ainda estariam neles. Desse total, mais de 200 são mulheres, número que vem crescendo nos últimos meses.
Durante muito tempo, inclusive após os atentados contra a revista satírica Charlie Hebdo e o supermercado judaico, em janeiro de 2015, clérigos muçulmanos ainda faziam livremente discursos considerados radicais.
Impacto de balas pode ser visto em vidro de caminhão usado em ataqueImage copyrightFOTO: REUTERS
Image captionEstado Islâmico assumiu atentado em Nice

Lei da laicidade

O modelo do multiculturalismo adotado em outros países europeus não é aplicado na França em razão da lei da laicidade, de 1905, que determina a separação entre o Estado e a Igreja.
Dessa forma, o Estado francês não pode oferecer serviços públicos específicos para determinada comunidade religiosa ou financiar a construção de mesquitas.
Foi com base nessa lei que foi aprovada, em 2004, a proibição de usar símbolos religiosos nas escolas públicas ou ainda, em 2010, o uso do niqab (véu islâmico que deixa apenas os olhos à mostra). Orações em grupo nas ruas foram proibidas em 2011.
Quando essas leis foram aprovadas no país, líderes de grupos islâmicos radicais proferiram ameaças contra o país.
A lei da laicidade sempre suscita discussões polêmicas na França, como a questão de servir ou não carne de porco (não consumida por muçulmanos) nas cantinas escolares.
A cultura laica do Estado francês é utilizada por radicais islâmicos como uma espécie de arma de propaganda para reafirmar a identidade muçulmana e reforçar, ao mesmo tempo, o sentimento de exclusão de muitos jovens.
"Nós sabemos que o Estado Islâmico planeja novos ataques e que a França é claramente visada", ressaltou Calvar aos parlamentares.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

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Merkel diz que Brexit é um 'golpe contra a Europa'; veja repercussão

Angela Merkel vai se reunir com líderes na segunda-feira em Berlim.
Outros líderes europeus também comentaram a saída britânica da UE.

Da France Presse
Brexit é um 'golpe contra a Europa e o processo de unificação', diz Merkel (Foto: Hannibal Hanschke/Reuters)Brexit é um 'golpe contra a Europa e o processo de unificação', diz Merkel (Foto: Hannibal Hanschke/Reuters)
A vitória da "Brexit" – a saída do Reino Unido do bloco europeu – é um "golpe contra a Europa, um golpe contra o processo de unificação europeia", afirmou nesta sexta-feira (24) a chanceler alemã, Angela Merkel.
Ela convidou o presidente francês, François Hollande, o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, e o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, para uma reunião em Berlim na segunda-feira (27).
"Tomamos nota com pesar da decisão da maioria da população britânica", declarou Merkel.
Referendo
Em decisão histórica, que tem potencial para mudar o rumo da geopolítica mundial pelas próximas décadas, os britânicos decidiram em referendo deixar a União Europeia, com 51,9% dos votos. O resultado foi divulgado por volta das 3h desta sexta. A opção de "sair" venceu por mais de 1,2 milhão de votos de diferença.
A decisão ficou conhecida como "Brexit", que é a junção das palavras em inglês "Britain" (Grã-Bretanha) e "exit" (saída).
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Repercussão
Outros líderes mundiais também comentaram a decisão dos britânicos de o país deixar a União Europeia; veja:
Presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk:
"Estamos determinados a manter nossa união como 27 (países)...  Irei propor que iniciemos um período de reflexão mais ampla sobre o futuro de nossa união."
Presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz:
"Acredito que agora as negociações sobre a saída irão começar rapidamente."
      
Nigel Farage, líder do partido britânico Anti-UE Ukip:
"A UE está fracassando, a UE está morrendo".
Presidente dos EUA, Barack Obama:
Obama disse em comunicado que respeita a decisão do povo britânico e afirmou que tanto o Reino Unido quanto a UE "vão continuar sendo parceiros indispensáveis dos EUA". "A relação especial entre EUA e Reino Unido é duradoura e a filiação do Reino Unido à Otan continua sendo uma pedra fundamental da política econômica, exterior e de segurança dos Estados Unidos", destacou ainda.

Presidente da França, François Hollande:
"A Europa deve ser compreendida e controlada por seus cidadãos. A Europa precisa agir rapidamente onde é necessário e deve, uma vez por todas, deixar os Estados membros lidarem com o que é seu domínio exclusivo", disse em discurso transmitido pela televisão.
Ministério das Relações Exteriores do Brasil
O Itamaraty afirmou que "recebe com respeito" o resultado do referendo e que manterá boas relações com a UE e com o Reino Unido. "O Brasil confia que essa decisão não irá deter o processo de integração europeia, nem o espírito de abertura ao mundo que caracterizam, e devem continuar a caracterizar, tanto o Reino Unido como a UE. Confia, igualmente, que todos os esforços serão feitos para assegurar uma transição suave e estável", diz comunicado.
Marine Le Pen, líder do partido francês de extrema direita Frente Nacional:
"A vitória da liberdade! Agora precisamos realizar o mesmo referendo na França e em (outros) países da UE."
Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier:
"A notícia vinda do Reino Unido é realmente atordoante. Parece um dia triste para a Europa e o Reino Unido".
Ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Marc Ayrault:
"A Europa irá continuar, mas precisa reagir e redescobrir a confiança de seus povos. Isso é urgente."
Ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble:
"Eu esperava um resultado diferente. Agora precisamos olhar para a frente e lidar com esta situação..."
"O processo da UE para a saída (de um país) da União Europeia está definido claramente e será implementado. A Europa irá se mostrar unida agora."
       
Primeira-ministra norueguesa, Erna Solberg:
"(É um) sinal tanto dos eleitores britânicos quanto de muitos outros de toda a Europa que sentem que a UE não está proporcionando respostas boas o suficiente para os desafios de hoje."
     
Primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban:
"Bruxelas precisa ouvir a voz do povo, esta é a maior lição desta decisão..."
"A Europa só é forte se puder dar respostas a grandes questões, como a imigração, que fortaleceriam a própria Europa, ao invés de enfraquecê-la. A UE não foi capaz de dar estas respostas."
     
Ministro das Relações Exteriores da Polônia, Witold Waszczykowski:
"Está é uma má notícia para a Europa, para a Polônia... tentaremos usar esta situação para conscientizar os políticos europeus da razão de isto ter acontecido. E aconteceu porque este conceito, que foi criado algum tempo atrás, não é mais popular na Europa."
Ministra sueca para a UE, Ann Linde:
"Precisamos mostrar às pessoas por que acreditamos que a UE é importante, por que precisamos permanecer. Temos que olhar as coisas que importam na vida cotidiana das pessoas, talvez onde tem havido ambiguidades, onde tem havido arrogância e onde as pessoas têm sentido que tem havido um projeto elitista... é uma situação muito séria para a Grã-Bretanha, mas também para a UE."
Primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon:
 "A Escócia deu um voto forte, inequívoco para permanecer na UE, e elogio esse endosso ao nosso status europeu."
Gianni Pittella, líder dos socialistas e democratas no Parlamento Europeu:
 "É triste, mas não é o enterro da União Europeia."
Hillary Clinton, provável candidata democrata à Presidência dos EUA
Hillary afirmou que respeita a decisão do Reino Unido de deixar a UE e disse estar comprometida em manter as relações norte-americanas com o Reino Unido e países europeus. "Nossa primeira tarefa é garantir que a incerteza econômica criada por estes eventos não afete famílias trabalhadoras nos EUA", disse ela, em comunicado.
Donald Trump, provável candidato republicano à Presidência dos EUA
Em visita à Escócia, Trump afirmou que existem semelhanças entre sua campanha e a Brexit. "Vejo um paralelo real", disse. "As pessoas querem recuperar seu país, querem a independência", afirmou.